A quarta-feira (17) trouxe um fato político que, em tese, reunia todos os elementos para ocupar espaço de destaque no debate público mato-grossense. Da tribuna da Assembleia Legislativa, o deputado estadual Chico Guarnieri anunciou o pedido de instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o repasse de R$ 20 milhões destinados ao Tribunal de Contas do Estado por meio de emenda parlamentar do senador Wellington Fagundes.
Independentemente do mérito da proposta ou das conclusões que uma eventual investigação possa alcançar, a simples apresentação de um pedido de CPI envolvendo recursos públicos destinados a uma das instituições mais poderosas do Estado deveria despertar atenção imediata da imprensa, da sociedade e dos órgãos de controle.
Mas o que se viu nas horas seguintes foi um cenário curioso: o assunto praticamente desapareceu do radar de boa parte dos veículos de comunicação regionais.
A pergunta que fica é simples: por quê?
A imprensa costuma defender, corretamente, a transparência, a fiscalização dos gastos públicos e o escrutínio permanente das instituições. Quando denúncias ou suspeitas recaem sobre prefeitos, vereadores, deputados ou secretários, a cobertura costuma ser intensa. Quando o foco passa a ser um órgão de controle, o mesmo interesse deveria prevalecer.
Durante seu pronunciamento, Chico Guarnieri também trouxe outro dado que merece debate público. Segundo os números apresentados, o orçamento inicialmente autorizado ao Tribunal de Contas para 2025 era de R$ 718 milhões. Ao final do exercício, entretanto, as despesas executadas teriam ultrapassado a marca de R$ 1 bilhão.
Outro ponto levantado foi o crescimento das despesas com publicidade institucional e propaganda. O orçamento inicial previsto para a área era de R$ 6,65 milhões, mas o valor executado teria alcançado R$ 22,65 milhões, representando um aumento de R$ 16 milhões ao longo do exercício.
São números que, por si só, justificam questionamentos, esclarecimentos e amplo debate público.
A sociedade não é beneficiada pelo silêncio. É beneficiada pelas respostas.
Se os recursos foram empregados de forma correta, uma investigação séria apenas reforçará a legitimidade da instituição. Se houver irregularidades, a população tem o direito de saber.
O papel do jornalismo não é proteger instituições nem atacar instituições. É fazer perguntas.
E talvez a principal pergunta surgida após o discurso do deputado não seja sobre a CPI.
Talvez seja sobre o silêncio que veio depois dela.








